No dia 20 de janeiro de 1971, o engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva, que havia perdido seu mandato após o golpe militar de 1964, foi alvo de uma operação em sua residência no Rio de Janeiro, na qual vivia com a esposa e cinco filhos. Após a invasão, ele foi levado a uma unidade militar para interrogatório e nunca mais retornou.
Essa história, sombria e devastadora, é tema do filme 'Ainda Estou Aqui'. Em cartaz nos cinemas brasileiros, o longa-metragem se baseia no livro de Marcelo Rubens Paiva, filho da vítima, que não só esmiúça o episódio, mas também destaca a força de sua mãe, Eunice Paiva. Após o desaparecimento do marido, ela lutou por justiça até que a verdade aparecesse.
As investigações realizadas pela Comissão Nacional da Verdade, finalizadas apenas em 2014, confirmaram que ele fora torturado e morte pela ditadura. Seu corpo jamais foi encontrado, resultando em anos de agonia para os familiares.
Podemos identificar no filme diferentes formas de resistência e símbolos de força, amor e política. Além disto, a doutora em psicologia pela PUC-SP Blenda Oliveira compartilhou alguns pontos que provocam reflexões importantes sobre aspectos da vida psíquica diante de uma época desafiadora.
1 - Luto e a dificuldade de aceitação da perda: O filme retrata o impacto psicológico da perda de um familiar e o desenrolar da história mostra como isso molda as ações e pensamentos dos personagens. "O luto é apresentado com muita sensibilidade, destacando a dificuldade em aceitar a ausência e o desejo de manter viva a memória de Rubens. Isso mostra como o processo de luto varia de pessoa para pessoa e, normalmente, é uma etapa desafiadora da vida".
2 - Memória e identidade: A narrativa reflete sobre como as memórias definem quem somos e como lidamos com o passado. Segundo a psicóloga, a tentativa de preservar a essência do que foi perdido, seja através de objetos, cartas ou lembranças, é um tema central que conecta os personagens.
3 - Resiliência e superação: O filme também aborda como as pessoas enfrentam traumas emocionais e tentam reconstruir suas vidas. "A busca por significado no meio do sofrimento é um aspecto recorrente que contribui para o desenvolvimento psicológico dos personagens. E, de certa forma, a forma como Eunice busca lidar com o luto é muito emocionante, pode inspirar outras pessoas mesmo em contextos diferentes", comenta Blenda.
4 - Conexões humanas e empatia: A história mostra como os laços emocionais podem ajudar no processo de cura. "A interação entre os personagens oferece momentos de empatia e solidariedade, enfatizando a importância de compartilhar sentimentos e encontrar apoio em outras pessoas. Ter uma rede de apoio para enfrentar momentos difíceis é fundamental", explica.
5 - dualidade entre isolamento e interação: Blenda traz outro ponto importante observado no filme. "Os personagens frequentemente oscilam entre o desejo de se isolar e a necessidade de conexão. Essa tensão reflete os conflitos internos que acompanham situações de dor emocional. Aqui, cabe lembrar que não há receita e a contradição de sentimentos é comum, principalmente num momento de dor. Por isso, o dia após dia, buscando acolher o que sente é uma forma de autocuidado e também de vivenciar as emoções e sentimentos sem tentar evitar a qualquer custo, o que normalmente intensifica o processo", finaliza a especialista.
A importância do cinema se faz em compreendermos que podemos aprender e refletir sobre nossas ações cotidianas a partir do momento que vemos a realidade diante de nossos olhos e prestamos atenção.
Fontes:
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1w009x22ndo
https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/como-ainda-estou-aqui-que-venceu-o-oscar-impactou-o-mercado-audiovisual/



